sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Desencanto




De novo as cortinas do silêncio
De dias sem sonhos
Os olhos sejam talvez
A epiderme dos desertos
As memórias o desolo
De todos os fogos
A putrefacção interior
O definhar das estrelas
Nada estranho neste abecedário
De tristeza em coordenadas
Indefinidas pentagramas
De sinfonias genoicídas
Sem nenhuma evidência
Que a noite exista para além
De um coração estranho
Desígnio dos abandonados
O infinito dos pensamentos
São jardins suicídios
Quedas não vistas e o estrondo
Cordas ao pescoço

Musgo




O desespero não está escrito nas estrelas
Não estão salvas de um céu
Em delírio 
Não param as ondas
Nem a gravidade
Mãos lenços ou bocas fontes

Nos primórdios os fogos eram azuis
De glaciares noites brancas
Após as águas o meu corpo
Ficava verde,o meu coração
Um funeral

Ocaso



Borboletas afogadas em ácido
E veneno
Tens a espada e a pena
Um salvar-te-me de mim próprio
Metamorfoseados invólucros
Despedaçados de um canhão
À culatra...
A repentina lixívia
O revirar dos olhos
Quando não tens uma arma à mão
Nestas noites que não se salva
A jugular de um beijo
As noites infindas sem lua
Sepulcros
Quinézio nos olhos
Não era um poema
Imagino o momento
Em que do teu pescoço 
Jorrou sangue
Não havia longura, resquícios
Um barril de polvora sobre 
A neve, traços
Caem as cinzas sobre as pálpebras 
Que as sombras com o terror
Nos devoram 
Espectros misantrópicos

[Des]Graça




Encostado à Graça
No desespero dos lamentos
E das flores murchadas
Violinos e espinhos
Dedilham pesadelos 
Nas horas adiadas
Preces que não chegam ao céu
Um Pai cheio de lágrimas
Palavras catatónicas sem imagens
Fantasmagórico o amor que nos separa
O murmúrio do chão pelo passos
Ogival é a noite contra o sol

Alfama




A vida é triste
A reminiscência de camas frias
Das cordas da vida sombrias
( aquececem-se ao rubor de mãos 
Solidão,( sem fogo ))
Prata a negro no sal espelhado
Cânticos desordenados
De obediência calados, fado
Um devastador sabor suave 
De esperar-te pela manhã
De rostos que vão contra o sol
... Fecham-se gavetas, contam-se trocos
Impérios,... fungam e em algum lado
Há-de ser saudade... de outra noite
( Que ainda não veio em suores
Ou sonhos )
Candelabros na hora de apanhar as cinzas
Caiem as senhoras das janelas
Os farrapos das memórias ardidas
Apeneia de uma vida não sentida
Desencanto ser-se pele, 
Ser-se esqueleto!