quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Catarse
Saberei que te esqueci
Senão tropeçares nos meus sonhos
Algo como ousar a escuridão
Do papel, a escrita
Libertação dos mortos
O vento tem várias páginas
O cinzento é para sempre
Nessa noite o coração é só
Tão imperfeito
Sem saber o que é estar mais partido
Sem som grito por dentro
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Buraco Negro
O meu corpo afunda-se
Os meus olhos são um nevoeiro
Massiço
Ter que enfrentar
Toda esta escuridão de peito pedra
Não há crepúsculos
No pestanejar
Espeto a caneta no peito
Ao que se ousa de preces
Avança a morte, mas lenta,
Com bocas e palavras e sangue
Promessas quando a luz
Incide e imperceptíveis todas as estrelas
Se apagam
No último fôlego do adeus sonho
Embalei-as ao colo
E um imenso negro
Tudo deixaram
Velados Deuses
Serão os seus velados
Corpos cansados que os
Levam à cova?
Não há água que socorra
Os deuses, alguns não
Merecem epitáfio...
Túmulos ambulantes
Desesperados não sabem
O que é o fim ou a decadência
Tudo é o horror das súplicas
Nos lábios trémulos, lamuriantes,
Do musgo extinguido ao sol
Nos templos erigidos incendiados
No horizonte... Toda a indiferença
Que lhes bate no peito de pedra.
... Sepúlcro secular...
Os dias celebram a sua fúnebre noitel
Aurora Bureal
Os gritos eram suspensos
Enquanto me enterravas a boca
Com a realidade.
Não consigo contar os pontos
Que coso, ao que se apelida,
De alma.
Não vi luz no cemitéro dos teus olhos
Há catatonia num corpo em frenezim
Onde devoraste o teu coração
Sem dentes.
Uma pedra de lua viaja
Na promessa de um amor perdido
Lá onde é frio o eterno
Quase fim do mundo
E os corações só ardem afogados.
Não há suícidio para as memórias
Neste verdadeiro Inferno.
Autópsia
Aqui não chega
O som melancólico da enseada
Imito o som ao trago
Condensar tudo no silêncio
Como algo destinado à destruição
A morgue de dissecação de sentimentos
Até Invísivel neste vazio
Impossível lobotomia que se concede
A um coração
Pensei que nevava
Mas eram cinzas que brotavam
Do meu corpo abandonado
Sem Sombra
Pareceu-me que vieram partículas
À boca
Não foi este o mundo que concebi
No desespero dos teus olhos
Um Inverno deserto embriagante
Metastizado
Macabro não ter pegadas
Depois de ter andado
Para este sepulcro branco onde me deito
Na contemplação só queria
Que as estrelas abomináveis
Caissem sobre o céu
Pelas paredes do negrume assombro
Bate-me a noite no peito
Os ramos braços
Imperam os espinhos magnéticos
Sobre o chão
As pétalas aveludam
A terra revolvida
Na insatisfação ainda espetaste
A Coroa no meu coração apodrecido
Sic Lvceat Lvx
Um mapa de sangue pisado
Que nos levasse ao esquecimento
Só nesse silêncio e triunfal momento
Pousado o dedo nos lábios, louvado.
Não sei se foi esta a sorte que nos separa
Estranho engenho do universo alento
Que connosco caminhava, marcara
União amplexo de um puro devastamento.
Abraço as estrelas no fechar da mão
Quando grito para dentro a escuridão
As digitais dos teus dedos memorizados...
Não há nada, nas longitudes abissais
Que ecoe reverberando os lamentos
Ó Céu, ó Morte, porque não me levais...
sábado, 13 de janeiro de 2018
Anjo Azul
Murmúrios dispersos
Areal lunar,
Ígneo, repercute isolados prantos
Monótonos nocturnos.
Amplidão secreta
Num éter multiforme tríptico.
Irreal, um anjo errava,...
Nas estrelas impossíveis.
Uma Tristeza Imperial
Espectro num poço semblante.
Gasoso que sublima
Tem carreiros, cada barco
Abismo, estranhas brisas.
Azul violino quase
Espelho de uma antiga matinal luz
Candelabro duende.
Cilindro que desce
Majestosas rosas negrume
Silêncio, Estátua, Graça.
Devoluto Coração
Ainda tive um sonho
Em que um dos joelhos
Tocava o chão... Vendiam-se
Rosas pela janela...
As pessoas eram a paisagem
Ao passarem. Um fluxo
Prantuoso predomina,
Enubladas no interior
Da respiração... Ecos
Melancólicos saudosos
Primaveris ricocheteados
Nos candeeiros e na escuridão
Oculta... Uma lenta e cadente
Tortura do céu. Murmúrios
Quando se limpam contra
As pálpebras... Tão longe...
Longe do esquecimento
Das pedras que voltam
Para os olhos e habitam
O meu coração devoluto
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Entre-Os-Rios
Passo pelas ruas, fantasma,
Onde cultivei a felicidade...
Rugas carregadas invólucros
Transbordo cadáver
Perpétuas árvores
As constelações têm outros nomes
Quando contra a crosta
Experimentar o defunto
Contra a boca
Sou a morte adiada andante
Segundos fragmentos
Obscuros tamanhos
Prantos
Nada tenho a dizer
Neste sufoco
Os meus olhos são reflexo
De o horror da tua ausência
Alguém disse vais morrer
De amor. Eu disse vou morrer
Por amor.
Estavas no musgo
E os cedros eram um portal
Para a lembrança na sombra
De ver-te nesse semblante nú
Sem murtalha a deslizar
Pela encosta dos cemitérios
Contra o rio ( de lágrimas )
Caos de Brumas
Este é o meu cais
Sem barcos nem mar.
O vento silva nos gargalos
As partidas ou chegadas.
Não é abrigo nem a chuva é ácida.
[ ao longe vejo um anjo
estátua preso ao céu
Falta uma pele para amar
Nem que seja só por uma noite...
Um coração tesouro
Ourives da sintonia
Beijos desesperados sincronia...
Fico ao relento
Molho os pés no alcatrão.
A chuva são teias
Quando semi-cerro
As pálpebras contra a luz.
A espuma está na garrafa.
[ as larvas escutam-se perto
Os farois são as lâmpadas
Fundidas dos candeeiros
Intermitentes depois de aquecidas.
[ andar neste chão
é como andar sobre o teu corpo
Arrasto a perna e as noites,
Os dias parecem intermináveis tempestades
Que escuto em sonhos
Enquanto flutuo nas bureais auroras.
[ acordo em prantos
sem lágrimas
neste cais abandonado,
um barco de silêncio
anseando o fundo
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