sábado, 31 de março de 2018

Senhora de Água




Relembro-te vestida de água
Os olhos negros importados
De luz
Agarrada às serpentes
Entre nós rios maternidades
Incessantes de lágrimas
Queria-te assim 
Num esquecimento igual à morte

Cheguei a este desespero 
Cinzento na opulência de quando
Tudo for vazio em que se respira
E não se encontra destino
Azul
O sopro fatigado que tinhas
Dentro tudo vento na aniquilação
Noites estas frias que cobrem

O coração

Tudo o que tenho para te dizer
São estas páginas em que morro
Num funeral adiado
Sumptuosas lâminas 
Que trespassam e não reparo

Nas vozes dos mortos contra a manhã


sexta-feira, 30 de março de 2018

Perplexo nocturno





Perplexo nocturno
Órfão de luz
As estrelas sem sombra 
Nada me dizem
Entre solavancos de prantos
A noite ainda não caiu
No devaneio de si mesma em dilúvio
Velados os murmúrios
Nas velas os intervalos
Da penumbra em suas preces
Beijos idos
São o alimento para uma roleta russa
Sintetizados no degolo de uma bebida branca
Deito-me com o escuro e não são
Os olhos que dormem ou descansam
Nada será deste pó em que me desfaço
Todos os dias numa pena desfasada
De me esquecer
Cá tudo fica
Nesta escrita interminável
De gritos interiores
Que me leva à morte de frio
Nos lanhos do destino
Não sei braille porque senão
Saberia como desescrever-te
Nesta falta de te esquecer
Crepita lá fora um sangue
Que não condiz
Nas imperceptíveis tatuagens perenes
Das agulhas com que encerro
As pálpebras

sexta-feira, 9 de março de 2018

Nove




Os dias são veneno
Dormir o antídoto.
Os meus olhos catedrais
Embrulhados em brumas nocturnas
O corpo amortalhado em cedros
Beijos elípticos negros
O amor destronado
Num templo de desgraças
Nada podem as palavras
Contra a animalidade da paixão
Um frio que assola
Mastigo os reflexos abetos
Na frequência de corpos esfarrapados
E um deus sem dor

Lua Cinza




No interior o meu coração
É uma câmara de espelhos
Passeamo-nos animais
No reconhecimento das folhas
Nas sombras e nas cinzas
Carregados contra a lua
Nos incêndios anelares
Há algo que cai em forma sobre o chão
Estão ali os beijos e as veias enterrados
No desfrutar da luz

Lareiras Desdentadas




Respiro sangue
Um relógio de ânforas sobrepostas
Denominado pelas implosões
E explosões
Escrevo contra uma corrente fria
Que me brota da cabeça
Não é difícil perder-me nesta
Ante-mão que se sucede
No ricochete da solidão
De lá caem lágrimas
As crateras invísiveis a olho humano
Escondidas em prados de carbono
Mãos que arderam no calor esvaído
Numa lareira de esquecimento
Nos ossos empilhados de frio

Inverno-Te




Ide Senhora
Que o Outono ainda não varreu
As folhas
E o sol esqueceu-se de anoitecer
Ainda não vi a geada
Nesta cama fria de gestos
O amor tem
A morte de mão aberta