sábado, 31 de outubro de 2015
A aceleração das sombras
A aceleração das sombras
no puxar do gatilho.
O cavalo de tróia em chamas
e um sangue
efervesce das fechaduras portas.
O mármore suaviza
a dissecação...
Trémulos os olhos brilham,
a íris agiganta-se
com o espanto da carapaça.
Invade o silêncio
para dentro,
os gritos estremecem
todas as ranhuras
que o fogo não consegue
perfurar.
Rejubilam as vozes
ao vento catatónico...
Incinerados fôlegos
num caixão sem luta!
Velocidade espectral
no crescimento a negro.
Aquela.
O pavor do louvor
no enterro
Apoteótica queimada
adjectivos procura,
desacelerados enquanto
o sol observa amordaçado....
... A queda sem aqueles...
Desfecundada terra sangue
em que se ergue o oásis baldio
ogival!
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Campos Incultos
Não mais que um pássaro
repousando ao sol
sobre uma árvore abatida.
Fagulhas de destroços
a seus pés aquilatada
linha emaranhada
grilhões a tornozelos humanidade.
A luz desagua pelas asas
cortantes, aproveita o vapor
do calor das labaredas.
Furiosas horas moribundas
acasos demorados pétalas monstruosas...
Protótipos noseolados
de esquecimento em estufas cadavéricos.
As nuvens habitam
os edifícios no céu vazio!
- Agora pára - pensa o louco.
Eventualmente a estrutura
é decepada para a janela de ejecção.
Maledicência sangueira
estandartes levitados
não vão a lado nenhum.
Debate-se a sombra contra o ferro.
As raízes perduram no chão,
o cepo serve para banquetes e descanso,
talvez bigorna, porque o céu
não se forja manchado.
Os grilhões sorrateiramente
aprisionam-se à carcaça
que voou sem cápsula
nas lavadas e penduradas entranhas...
Uma cabeça rebola
parte árvore cortada
curte-circuitada invisivelmente.
Caem portas sem chave,
sem chão, sem tecto...
Não se vestem as asas
com a linha emaranhada
sem fim no que toca
de uma lua apagada.
Os ramos crescem
esgravatam os braços,
olfactam a cabeça; ao longe
os horizontes fleumáticos
inegualados ocasos de geometria
fantástica aleatória.
Uma cabeça rebola...
- Pára agora - pensa o louco.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Insano Sangue
Não há pressa de ir a nenhum lugar .
Não há pressa de ver o tempo passar .
Sem expectativa .
De devorar as ruas porque o tempo
não espera ; de pensar que não dormirei ,
que acordarei com pressa , e sem pensar ,
que levito no meu próprio cansaço .
De projectar para além de ...
É quase um sem esperança tal qual
um sem abrigo da vida .
De estar só em algum lugar ,
não ter burburinho à minha volta ,
de não respirar , não acordar ,
dormência .
De dormir , de viver .
É quase um insano sangue
que vive por baixo da pele .
domingo, 18 de outubro de 2015
Pena
Quase me obrigo a engolir a escrita
...
Tão estranho exercício o de querer
cuspir palavras...
Fazer um vestido, para com elas
Tapar toda a solidão.
...
O rastilho, apaga-se constantemente...
Todo o magma em inércia exterior
À espera de centríptamente explodir...
...
Por vezes as palavras pintam
Edifícios escuros, ruelas, becos,
Frases abandonadas a azul ou a negro
...
Apagam as pegadas do vinho ingerido
...
Os suspiros que o tempo nem sabe
quanto tempo o tempo levou!
...
De uma pena alimenta-se a tinta.
Num poema, as rodas dentadas
Engrenadas ao sofrimento...
...
Sempre que pousa,
Esvoaça avidamente, quase,
De um destino que lhe foi traçado.
...
Penso em todas as penas
Que já foram olhos.
Todos os olhos que abandonaram
A felicidade num poema.
Todas as penas que não tiveram
alimento e se mumificaram
Em todas as lágrimas fossilizadas
no papel.
...
Os olhos
Berços habitados sozinhos...
Amanhã ponho-os numa cera
Para uma chama para um pavio...
...
Os teus lábios lá esperavam
...
À luz que aqui não se demorou.
Um artefacto esquisito de atrocidade.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Silêncio Genocida
O Demónio trás o pão,
com o tempo, o esquecimento,
a solidão...
O ser-se não sei o quê
numa catapulta de aglomerados
concretos onde habitamos
uns sobre os outros
empilhados sonhos.
Uma fila que apita espera
os números não aleatórios...
- Tomai do meu corpo e de mim.
Não se abrem portas,
paga-se a dízima...
- Já foi o meu tempo -
Há subterrâneos
pessoas formigas saídas,
centrípetos na electricidade
e no pão de cada dia,
estruturados que foram outrora campos
infindáveis à vista desarmada...
O trigo crescia livremente ajudado
sem desumana obrigação.
- Foi já o tempo - pensa o cajado
encostando o ouvido ao chão.
Emigrados fúnebres
convividas tocas cubos campas,
os números não param...
As parcelas são sequenciais,
o Demónio sorri com responsabilidade...
- Tomai de mim e do meu corpo.
Catatónicos olhares encrostados
em ferro e betão
a memória e a glória de amanhã!...
Rejubilada foice na mão negra...
Faltam os pregos... Ah... Os pregos...
Cuspimos-los todos os dias
em hóstias fim
- Tomai do meu paraíso!
O Demónio sorri...
A miséria não está assim
tão longe dos vossos pés...
A cera derrete
semblantes de vela
no silêncio genocida.
domingo, 11 de outubro de 2015
O Palácio de luto
Intravenosas florestas
alheias bolas de cristal
ambulantes reflectidas
desmesurados palcos
extinguidos, musgueadas
vozes em sangue se perdem.
As badaladas invisíveis
em olhares penetrantes numa
imagem deslumbrada
no esquecimento do amanhã.
Apontar as miras
contra si próprios...
Nas sombras abrigam-se
os monstros na nomenclatura
de um anjo que caiu cheio
de luz furtada. O baptismo
entregue à electricidade e efusividade
do monóxido carburado.
Memórias estampadas
relíquias esquecidas...
Portões ao lusco-fusco que aguardam
jardins existentes inalcançáveis.
Ogivas pregadas no chão
apontadas, eternizadas e em
nome do medo. Interiores
decrépitos, erupção extraordinária
de comprimir e implodir!
Esquivam-se pelas escadas
e pelo pensamento, tudo o que se é,
no dióxido invertido!
Não mais conspurcar a esperança vã,
vá que olhos magnitudes
reflectem mesmo que não vejam.
As larvas também têm um
nome de outro nome de outro
nome... São cemitérios
andantes castelos de pedra
cinza...
Nada se pode contra o sol
e o céu que o protege!
Escutam-se ao longe os gritos
do palácio de luto.
sábado, 10 de outubro de 2015
Caminho para a chacina
No caminho para a chacina!
Os olhos alcatrão sufocante.
É sã a escuridão!
De pontos saíria toda a minha,
escrita, toda uma linguagem
imperceptível,... universal!
Pacientemente aguardadas
A vida extingue-se à beira
de um isqueiro!
Ruas de penumbra;...
Aqui o sol foi esquecido!
Lá se rezam as farsas
Não brotam assim as raízes,
os seus braços abandonados
às intempéries, à desolação,
aos acontecimentos e ao passar
do tempo em seu nome?!
De duas ou três graças
Que som tem a luz
na cegueira dos enterrados?!
A melancólica melodia
a acompanhar o acto,
a cerimónia!
Os sorrisos loucos
que não olham para trás,
agarrados à mandíbula,
colados à caveira, vislumbrados
nas orbitas vazias!
De duas ou três graças
lá se rezam as farsas,
pacientemente aguardadas
no caminho para a chacina!
sábado, 3 de outubro de 2015
Teias de aranha braille
Teias de aranha braille
tecidas nos ouvidos
no túnel fuziladas campas,
encostados a muros que se desfazem
a sangue evaporado em terra.
Os mortos, caem pela sarjeta.
Caem as cruzes, os cajados,
sobem solenemente às
portas da adoração...
Rosas esventradas nas pontas
das mãos.
Cérebros conspurcados;...
A inevitabilidade desabentuada.
Todo um quadro de horror
em bênção da imaculada Senhor!
Sombra corpo crux
na passadeira do céu...
... Uma adicção invisível...
As caveiras atravessam!
Ralados miolos quando falam
[
O cruel sabor do acontecimento!
Éons éons de devastação
]
As aves passam ao
peito
dedos de escuridão apontados
à servidão olhos.
Jardins magnéticos caídos
da boca para as janelas
Acordes de ressuscitação
no patinar das rodas
contra os carris; levitados
corações que faíscam nas linhas!
...
Os campos são de oiro
na imaginação dos ceifados
[
A monstruosidade dos braços
comidos para dentro.
]
Os quelhos na mão da escrita
Alucinadas abertas veias
em busca do padrão
esguichado
Teias de aranha braile
tecidas nos ouvidos
no túnel fuziladas campas
encostados a muros que se desfazem
a sangue evaporado em terra.
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