domingo, 18 de outubro de 2015

Pena




Quase me obrigo a engolir a escrita
...
Tão estranho exercício o de querer
cuspir palavras...
Fazer um vestido, para com elas
Tapar toda a solidão.
...
O rastilho, apaga-se constantemente...
Todo o magma em inércia exterior
À espera de centríptamente explodir...
...

Por vezes as palavras pintam
Edifícios escuros, ruelas, becos,
Frases abandonadas a azul ou a negro
...
Apagam as pegadas do vinho ingerido
...
Os suspiros que o tempo nem sabe
quanto tempo o tempo levou!
...

De uma pena alimenta-se a tinta.
Num poema, as rodas dentadas
Engrenadas ao sofrimento...
...
Sempre que pousa,
Esvoaça avidamente, quase,
De um destino que lhe foi traçado.
...

Penso em todas as penas
Que já foram olhos.
Todos os olhos que abandonaram
A felicidade num poema.
Todas as penas que não tiveram
alimento e se mumificaram
Em todas as lágrimas fossilizadas
no papel.
...

Os olhos
Berços habitados sozinhos...
Amanhã ponho-os numa cera
Para uma chama para um pavio...
...

Os teus lábios lá esperavam
...

À luz que aqui não se demorou.
Um artefacto esquisito de atrocidade.

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