terça-feira, 13 de outubro de 2015
Silêncio Genocida
O Demónio trás o pão,
com o tempo, o esquecimento,
a solidão...
O ser-se não sei o quê
numa catapulta de aglomerados
concretos onde habitamos
uns sobre os outros
empilhados sonhos.
Uma fila que apita espera
os números não aleatórios...
- Tomai do meu corpo e de mim.
Não se abrem portas,
paga-se a dízima...
- Já foi o meu tempo -
Há subterrâneos
pessoas formigas saídas,
centrípetos na electricidade
e no pão de cada dia,
estruturados que foram outrora campos
infindáveis à vista desarmada...
O trigo crescia livremente ajudado
sem desumana obrigação.
- Foi já o tempo - pensa o cajado
encostando o ouvido ao chão.
Emigrados fúnebres
convividas tocas cubos campas,
os números não param...
As parcelas são sequenciais,
o Demónio sorri com responsabilidade...
- Tomai de mim e do meu corpo.
Catatónicos olhares encrostados
em ferro e betão
a memória e a glória de amanhã!...
Rejubilada foice na mão negra...
Faltam os pregos... Ah... Os pregos...
Cuspimos-los todos os dias
em hóstias fim
- Tomai do meu paraíso!
O Demónio sorri...
A miséria não está assim
tão longe dos vossos pés...
A cera derrete
semblantes de vela
no silêncio genocida.
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