sábado, 25 de março de 2017
Sarcófagas horas
Veio o sol.
Esquecemos o frio que nos
assolou.
Catarse bombas de hidrogénio.
Mergulhados seguramos um extintor...
Razia aos pés cósmicos.
Um cronológico receio da lua
desaparecer
para tão poucos ramos
que as palavras voariam.
Labirintos de catástrofes
na implosão ao horizonte.
( Dançam os suspiros da ansiada
amada )
Muralhas deslizam para o rio
Naus funestas nuvens melancolia.
Arquitectura a sangue
transpirada
vãos onde a noite cai nua...
Tantas demoras e descamar
de céus ao atearem-se os incêndios...
Sarcófagas horas damas de ferro.
Primavera adiada
Não importa se é jardim que floresceu
ou um deserto onde todas as lágrimas
já caíram.
A morte é tão igual
ao respirar.
Uma bacia lava o semblante
com todos os espelhos partidos
pela manhã na arrogância
de pensar a pele.
À velocidade da gravidade...
... A cadência da cinza a espelhar-se...
Nada navega na escuridão.
Uma caneta segura a mandíbula,...
Às pálpebras estão presos os sonhos
rente aos pregos...
Perecem estações
ao caule das rosas cortadas...
Apalpar as pétalas caídas,
ainda hirtas, frescas,
alheias aos sepulcros cheios de penas.
Matrioska
Os dias cavam o musgo ao sol,
interpõem-se na promessa de chuva,
nos algeirozes por limpar.
Sonha-se o céu do céu.
A todas as nebulosas que nasçam
que aqui caiam.
Do vento à semente
a terra que não a encontra árida.
Tudo uma perfeita brincadeira
de quem fome não passa
e o universo como tecto o abriga.
Das palavras para nós,
aos outros, na fluidez da descontracção
e do desapego das veias.
Incrédula peneira dos sonhos...
Altivez ao toque nas pétalas por nascer
à palavra de ordem do desassossego.
Bomba armada sangra para dentro
Matrioska de sombras...
Lâminas lambuzam-se ao vento
... Estranhos campos magnéticos invioláveis...
A areia esguicha dos cronómetros inevitáveis...
Assim se criam os desertos.
Pétalas de pedra
Devias experimentar
os punhos contra uma parede,...
e a cabeça...
Um verso que nos engole
para dentro...
Espalmo uma orla de morcegos
contra o pulso. Será negro?
Será vermelho?...
No côncavo do ante-braço
há um vale de sepulcros
lavrado em lágrimas e saliva.
O coração palpita com
uma cadência doentia de estar vivo.
Estremece o chão por baixo
em rodas dentadas.
Pelos pulsos que se quebraram
não se demoram os olhos.
As mãos arderam no escuro caminho.
Um coração em pétalas...
...definha...
...caem...
Pena II
Aquele campo de rosas
nunca mais foi o mesmo
depois de o ter esventrado...
...
... Nunca mais foi...
... o mesmo antes
da última rosa cair à boca
da lâmina que empunhava...
... Aprendeu o seu nome
em silêncio...
... Todo aquele vermelho
em veludo pétalas. A subtracção
da luz ao sol
e ao céu ingerido no solo
Plutão...
...
À noite desarábica do ser
Noites e dias assassinos
No final de mais
um dia,
lá vem sempre o mesmo
infindável ensanguentado
caminho...
As estrelas lá nem
se reflectem...
Mergulho as minhas mãos,
tento lavar o meu rosto...
Não me apercebo
que é de lá a fonte,...
nos narcisos escondidos
atrás dos meus olhos.
...
Aproveito enquanto a escrita
é perceptível não alcoólica
e as palavras
não se afogam no papel.
... Há um vazio
entre as sombras e o ferro...
... Sentados os cadáveres.
... Um lodo
bigornas de enterridade!
Num interior
com paredes, chão e tecto
identificamos melhor a nossa solidão
nada comparada a um caixão...
Num interior
se faz a festa...
Poderia ser na chuva mas
no interior...
se faz a
chuva!
...
... Não quis ver o desespero das ruas
O estômago irrompe por dentro.
A mão em espátula vasculha-o
ou enterra-se por entre
as vértebras...
deixam
penetrar em lança...
- Só mais uma - disse-lhe-
só mais uma...
... uma só estaca no coração!...
Interroriedade
... A chuva não inverte; ...
não há caminho
de onde cai... !
... Disparados à espera...
Disparados à espera
no que não iam encontrar!
... Cada vez é mais longo o caminho
para aqui chegar...
E com a chuva limpo os
lábios...
Invólucros de miséria
esbatem-se sobre o chão
Os olhos não faiscam!
Inacreditável como só, agora,
acordaram no homicídio...
Não se fazem assim, hoje,
as noites e os dias
assassinos?!
Invólucro
As pedras brotam da língua com surpresa.
Melancólica erosão das borboletas.
O sol tão mais sol à velocidade com que se queda.
Arrancam-se as folhas da bruma da esperança
às invisíveis ondas nocturnas...
Naquele universo onde nada oxida
a poesia navega escura na maldição da pena.
Alicerces dos cemitérios a palavra escrita...
... O vagar com que tudo passa ao longe.
O desespero é no branco reflexo.
O fotograma respira sem negativo
interlúdio do casulo asfixiado à luz...
Tão animal como o assassino
a natureza sem mural,
uma estrada de gritos sem saída...
Para onde nos leva este mercúrio que não explode?
Sombras emprestadas de volumes alheios,
as lágrimas cravaram-nos nas órbitas
nascentes de sofrimento oposto ao Inferno.
Mercúrio
Um íman que se fecha na mão.
Nada morre!
Andar atroz para o cemitério,
o chão vão
da poeira...
Um relógio que não pode ver o sol.
Evolução da melancolia
na maravilhosa imperfeição...
Céu sem isolamento;
Tédio longínquo
no escrutínio do ar que se respira...
Na voz da dor silenciada
lágrimas sem gravidade.
Lembrar os vivos!
o desamor que não levamos para a cova.
Passa um mundo por nós
geocêntrico,
um tique intervalado,
curiosidade díspar
na elipse do sol a percorrer
as sombras.
Tudo instantes de noite mal dormidas
e a escrita que nem se reconhece
nos sonhos.
Os vultos pairam nos mecanismos
desumanos,
o desamor que não levamos
para a cova.
Misantropos, os olhos vagos,
no cerne do verão.
traços a contra baixo
na volátil escuridão.
Mais do mesmo o que nos veste.
No apressado avançar, franzir,
os olhos e as ondas evaporadas
no fundo da calçada, esvair.
De sangue, a noite
uma sinistra descoberta
abaixo de zero no termómetro
de atmosfera sombria...
Senão é loucura o que se passa
sob o sol,
será nascimento apoteótico
de outro espaço que passará
para além.
Procurar no desencanto a esperança
de viver,
reinventar a morte adiada...
... Ajudem a alimentar um deus.
Bronze por fora, glaciar por dentro.
São mais puras as águas paradas
do que beber na desgraça.
Um destino incolor pálpebras
num deserto interior.
Um céu sobre um véu sol branco
Era de dia ou era de noite.
Bronze por fora, glaciar por dentro.
As palavras...
Catacumbas gritos
nas desoladas amplitudes abissais.
Mais perto da foice
de janela aberta.
Naufrágio na contemplação das sombras...
Ao pendurão no portulano, a mão.
À sina torna-se uma praga, um imenso...
Anuncia os ventres e os ventos
não drenados
os centímetros para a morte.
Boquet que se esvai
contra a espuma do espelho
- nós não estamos a fazer um produto!
As veias que estão no Apocalipse
as sombrancelhas são do tamanho de terramotos.
A que a nada nos reserva,...
Seio de pedra
para amamentações
de mármore.
Os dias
o tempo... Deixaram
de conhecer o sabor
dos segundos
É importante
guardar as mortalhas
Uma sensibilidade
atroz ao escuro
Musgo nevoeiro
feroz
desolado de oxidação
A morte que vemos erecta
O rio que come o horizonte
ao longe,
a terra.
A que a nada nos reserva,...
os olhos
Parecia preto à sombra...
Não há inspiração
nos tragos de vinho
ingeridos na calma citadina antiga.
Nos ecos das vozes desconhecidas
que passam electrificadas,
no ranger das portas e dos seus
estranhos habitantes...
Um pássaro na mão... quem já
não os teve?
Soluça a curiosidade sempre
ao virar da esquina quando
o rio espreita e a lua desponta
com os seus braços prateados,
abandonados à mercê das marés.
Parecia preto à sombra...
Corre apressado o tempo a sangue
e as vozes melancólicas na meresia,
sufocadas contra as suas próprias
paredes invisíveis.
Tudo será mofo
de uma estrela que morre ao longe
ingénua.
Carregados com as cadeiras,
para um lugar qualquer,
entre e entre parêntesis,
ninguém nos obriga a mudar de linha,
a viagem cega pelos corredores
das algas ressonantes,...
Anunciadas as cinzas
na rebentação...
Um grito num rosto
que nem de lá no fundo se ouve...
Um macabro rasgo
de escuridão.
Um corpo que se cobre
de noite rio.
Negras espirais dimensões
Caveiras vazias
Cheias de vida
Anatomia dos sonhos,
descomposição das sombras.
( Crianças digitais )
Um reflexo que se olha
e não se mexe...
O desconforto contorno
da luz
Tudo morre num eco.
O vinho nos dedos
e o Outono sabor à boca.
A areia vermelha em marcha
no passadiço do matadouro.
Uma fotografia, estáctica,
atirada de encontro
às palavras.
É um vácuo murmurio
que vem do horizonte
quando olho o rio.
É noite
nesta época de máquinas.
Apagam-se as luzes.
A viagem acabou.
Viemos dar às trincheiras
bombardeadas...
Nada de interesse neste campo
que não seja a morte...
, Mesmo que não haja guerra.
Negras espirais dimensões
Deserto Crepuscular
Ao longo vale lá escuro
que tudo absorve num puro
encanto, por ali paro
e param as nuvens, as estrelas;
na primeira pessoa
aos cruzamentos sobrepostos,
toda a angústia num portal
ponto para onde tudo desvanece.
Aqui escrevo cartas
e olho o horizonte
e não há pérolas querido Al Berto.
Há calçadas e pedras
e o dominó do pé coxinho.
Estes são os panos das velas
e o meu século.
Toda esta calma com que nos
cresce desertos no coração.
Itinerário do coração frio
Matança de dias esquisitos...
Tudo o que nos adivinha a pele
combustão inercial inútil e o arder
das velas nos tampos das mesas,
a cera que escreve o nome dos séculos
o respirar indescritível da escuridão
a galopar invisivelmente para dentro
sem morfologia.
Passar a mão sobre
sossegar o abismo pelo dorso.
Os ecos vagam absolutos
mergulhado o semblante em expira ais.
Mórbida a deslocação
com que tudo passa.
O nevoeiro melancólico
na heresia de enfrentar os dias.
Itinerário do coração frio
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